lunedì 21 marzo 2011

Os caminhos da palavra

(Publicado no Diário do Nordeste, 21 de março de 2011, IN: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=950658)

A coluna Palavras, Lógica e Sentido comemora hoje seis anos. Iniciada em 2005, as publicações fizeram do autor Frei Hermínio Bezerra um verdadeiro consultor de etimologia no País

O estudo da etimologia não é para muitos. Exige paciência, pesquisa árdua e verdadeiro apreço pelos dicionários. A etimologia é o setor gramatical dedicado ao estudo da origem das palavras e dos elementos que as constituem. Está diretamente relacionado aos fatos históricos, à cultura das civilizações e ao seu imaginário.

Em geral, palavras derivam de outras, de outras línguas, modificadas pelas sociedades. Os etimologistas têm por função, entre outros, reconstituir a história das palavras: quando chegaram a uma língua, quais suas fontes e como seus formas anteriores foram modificadas.

Atuando como verdadeiros investigadores, esses estudiosos se ocupam também em resgatar informações sobre antigas línguas, muitas vezes de escrita ou tradução difícil de ser reconhecida. Rastreando os radicais das palavras, os pesquisadores percorrem suas veredas em busca de um caminho inverso, que identifique seus verbetes ancestrais. Logicamente, a palavra "etimologia" também possui a sua própria etimologia: vem do grego "étymos", que significa verdadeiro, e "lógos", ciência, tratado.

Hoje, há exatos seis anos, o filósofo, teólogo e tradutor Frei Hermínio Bezerra estreava nas páginas do Caderno 3 sua coluna Palavras, Lógica e Sentido, dedicada à arte da etimologia. Amante dos vocábulos, o religioso iniciou em 21 de março de 2005 sua viagem por essa ciência, destrinchando a língua portuguesa, apresentando suas origens, significados e traduções para outros idiomas.

Com uma média de 10 a 13 verbetes a cada edição, o autor, tradutor oficial de português da Cúria Geral dos Capuchinhos, em Roma, pode etimologizar mais de três mil palavras.

"Sou muito interessado em dicionários, dos mais variados assuntos. Leio-os como quem lê um romance. Tenho cerca de 150 deles, sobre música, numismática, nazismo. Tenho até um dicionário de palavras que não existem e um dicionário de dicionários", revela Frei Hermínio. A partir de fevereiro de 2007, o capuchinho passou a escreve a coluna em Roma, onde reside.

O processo para a produção das colunas é contínuo. Devido ao seu ofício de tradutor, Frei Hermínio está sempre atento a novidades e curiosidades.

Retorno dos leitores

"Em geral sigo o alfabeto, mas já escrevi muitas colunas sobre temas: clima, ecologia, justiça, Igreja, direito, nomes de origem tupi e o nascimento de palavras, como a que temos aí no Brasil: ´sambódromo´, do bantu ´samba´ (umbigada) e do grego ´dromo´ (lugar de correr), tal como autódromo, hipódromo", comenta. Cada coluna leva de quatro a oito horas para ser escrita e pelo menos dez dicionários são consultados no processo. "Por causa da coluna, recebo dezenas de e-mails por semana", comenta o capuchinho. Informações, elogios e críticas são enviados pelos leitores. Com os anos de publicação, Frei Hermínio afirma que já se tornou um verdadeiro consultor de palavras em todo o Brasil.

"São numerosas as consultas de professores, advogados e leitores assíduos. Perguntam-me sempre sobre a origem de palavras, os diversos sentidos e se determinado termo cabe em um certo texto e/ou contexto".

A consultoria do religioso foi de extrema importância em dois episódios bem diversos, destacados pelo colunista. Em março de 2007, na exortação pós-sidonal lançada pelo Papa, intitulada "Encíclica Sacramentum Caritatis" a palavra "plaga", que significa chaga ou ferida, foi traduzida como praga. Frei Hermínio inseriu-se no debate nacional dedicando sua coluna do dia 2 de abril à correção do termo.

Em um segundo momento, a consultoria do autor contribuiu para a absolvição de um leitor paulista, de Ribeirão Preto, que sofrera um processo judicial. O leitor fora indiciado por "crime de silabação" ao dizer a uma deputada que este termo se separava da seguinte forma: de-puta-da. Sua intenção era apenas ressaltar a pureza da parlamentar, já que o termo "puta" significa, na verdade, "pura", em latim.

Diante do mau entendido (sic), o leitor paulista recorreu a Frei Hermínio, que enviou a ele um artigo em sua defesa, explicando que, de fato, "o adjetivo é formado a partir do verbo: puto, putas, putavi, putatum, putare, que significa limpar, purificar", como teoriza o próprio religioso.

Segundo ele, na antiga Roma, os candidatos a "deputado" se apresentavam ao eleitor vestindo uma toga branca, para mostrar a pureza com que se propunham a esse cargo público. A palavra candidato, inclusive, provém de cândido. O artigo foi aceito pelo juiz, que permitiu a absolvição do réu baseado no parecer do especialista.

Grato pelos seis anos de publicações periódicas, Frei Hermínio garante que não só instrui seus leitores, mas aprende com eles. "O que mais aprendo é que sei pouco. Com toda a pesquisa que faço e o cuidado que tenho ao produzir cada coluna, de vez em quando, um leitor mais atento ou mais informado do que eu, em algum ponto, me corrige. Agradeço prontamente ao e-mail e procuro responder a todos com humildade, dizendo que não sei tudo", ressalta.

Processo de pesquisa

3000 palavras já foram etimologizadas durante os seis anos de publicação da coluna. Para produzí-las, o Frei dedica entre quatro e oito horas, consultando cerca de dez dicionários diferentes.

MAYARA DE ARAÚJO
REPÓRTER

lunedì 14 marzo 2011

A lambança do duplo acento

O acento duplo é uma das dificuldades do Acordo Ortográfico da língua portuguesa, em fase de divulgação para o conhecimento, desde 01/01/2009 no Brasil e de 01/01/2010 em Portugal. Após essa fase que vai até dezembro de 2012 está prevista a efeteivação e a consequente entrada em vigor desse Acordo, em todos os países de língua portuguesa.

São dois os casos: as palavras paroxítonas terminadas por ditongo, também conhecidas como "falsos proparoxítonos", com pronúncia fechada no Brasil e aberta em Portugal, como: Antônio/António, bafômetro/bafómetro... e as palavras de origem francesa, sem razão, pois têm pronúncia fechada em Portugal e no Brasil.

Em francês o acento agudo tem o som do circunflexo, escreve-se Pelé, mas pronuncia-se Pelê. Assim têm a mesma pronúncia, mas têm duplo acento (opcional naturalmente), as palavras: balancê/balancé; baumê/baumé; bebê/bebé; bidê/bidé; bilboquê/bilboqué; cachê/caché; cachenê/cachené; carnê/carné; comitê/comité; consomê/consomé; crochê/croché; cuchê/cuché; demodê/demodé; fricassê/fricassé; giroflê/giroflé; glacê/glacé; guichê/guiché; guilochê/guiloché; habituê/habitué; macramê/macramé; matinê/matiné; nenê/nené; negligê/negligé; patê/paté; pavê/pavé; plaquê/plaqué; ponjê/ponjé; psichê/psiché e purê/puré.

martedì 1 marzo 2011

Eleição, Ensino e Educação

Escolha, no sentido denotativo, é o ato ou efeito de se escolher ou de se manifestar a preferência por alguém ou por algo que se encontra em meio a tantas outras apresentadas. É a forma que se tem de optar entre duas situações e, portanto, mostrar aquela que é de sua predileção. É no ato de eleger que se exerce a verdadeira capacidade que se tem de escolher bem e com discernimento. No sentido conotativo, a escolha pode ser apenas aquela sobra, aquele resto desprezível dos produtos agrícolas, por exemplo, como no caso de cereais. O refugo ou rebotalho.

Nas provas com opções de múltipla escolha, pode prestar atenção, entre as cinco respostas possíveis, sempre sobram duas possibilidades. Mas apenas uma é a resposta correta. Às vezes, como nas eleições de segundo turno, nós acabamos optando pela escolha e jogamos fora a possibilidade de acertar e escolher a opção correta.
Ensino e educação. Outro dia, um dos meus alunos, ou aluna de Ciências Humana, na Fanor, perguntou qual a diferença entre ensino e educação.

Ensino, ou transferência de conhecimento e de informação específica de modo geral, é exercido, principalmente, por aqueles que se dedicam ao magistério. Ensino é sinônimo de educação, mas se diferencia, à medida que se refere mais à instrução didática escolar; seja no ensino infantil, fundamental, secundário ou universitário. Ensinar enseja a transmissão de experiência adquirida, seja por vivência, por lição, por ensinamento ou pelo exemplo. Exemplo é tudo aquilo que pode ou deve ser imitado. É o modelo que deve vir dos mais velhos. É o devir.

Educação envolve a aplicação de processos e métodos próprios que asseguram a formação e o desenvolvimento físico, moral e intelectual do ser humano. Pode ser feita pela instrução pedagógica, didática e, principalmente, pelo exemplo. De nada adianta dizer para o seu filho não mentir, se você pede a ele para dizer que não está quando alguém lhe telefona. Ou dizer que não pode jogar papel na rua, quando você não respeita esse preceito. O exemplo, mais que as palavras, é que arrasta e induz as pessoas, especialmente as crianças, a fazer ou deixar de fazer algo.

Educação, na realidade, vai além do ensino, pois se refere à observação e ao conhecimento dos costumes da vida social, às normas de civilidade, delicadeza, polidez e cortesia. Uma pessoa pode ser instruída, mas não necessariamente educada. Já muita gente com pouca instrução pode ser, com certeza, muito bem educada. O efeito produzido por uma dessas condições, nem sempre traz consequências positivas para a outra.

Por que ler os Clássicos?

O cubano Ítalo Calvino, ele próprio um autor de clássicos, como O Visconde Cortado ao Meio, O Barão Trepador, O Cavaleiro Inexistente, Palomar, Sob o Sol Jaguar, Seis Propostas para o Próximo Milênio, As Cidades Invisíveis, Cosmicômicas e Marcovaldo, brinda-nos com o livro Por que ler os Clássicos? Os clássicos, segundo Calvino, são os livros de que se costuma ouvir dizer: "estou a reler... e que sempre constituem uma riqueza para quem os leu e amou; que exercem uma influência especial e inesquecível e que nunca acabam de dizer o que têm a dizer".

As odisseias que contém a Odisseia, obra atribuída a Homero, e que conta as aventuras de Ulisses. A guerra de Troia. O cerco. O cavalo. Desse clássico, o paraibano Zé Ramalho e seu parceiro, Otacílio Batista, escreveram um clássico da MPB: Mulher Nova, Bonita e Carinhosa, cujos primeiros versos dizem o seguinte:

Numa luta de gregos e troianos
Por Helena, a mulher de Menelau
Conta a história que um cavalo de pau
Terminava uma guerra de dez anos
Menelau, o maior dos espartanos
Venceu Páris o grande sedutor
Humilhando a família de Heitor
Em defesa da honra caprichosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor...

Xenofonte é apresentado por Calvino não apenas como o autor que descreve um velho documentário de guerra, mas que, além disso, traz com plenitude um variado prazer de leitura. Calvino fala também de Ovídio e a contiguidade universal; de Plínio, o Antigo, e tantos outros autores da literatura clássica universal.

Como entender que algo é kafkiano sem jamais ter lido O Processo, de Kafka? Ou saber o que significa o método cartesiano, desconhecendo O Discurso do Método, de Descartes? Ou compreender a Via Láctea, sem conhecer As Metamorfoses, de Ovídio? É preciso ler os clássicos, mas sem se esquecer de se atualizar com a sapiente leitura das atualidades. A tudo isso, segundo Calvino, "a única razão que se pode aduzir é que ler os clássicos é melhor que não ler os clássicos".

Com os clássicos é muito mais fácil entender que eleição, ensino e educação têm muito mais a ver um com o outro que uma simples letra inicial dos nomes.

Zacharias Bezerra de Oliveira

giovedì 24 febbraio 2011

Desembargador

Muita gente tem-me perguntado:

- O que faz mesmo um desembargador?

De maneira clara e simples, eu respondo:

- O desembargador é o Juiz do Tribunal de Justiça. É o juiz da instância máxima do judiciário estadual. Quando temos uma sentença favorável, dada por um juiz de qualquer uma das varas no Fórum e a outra parte recorre da decisão, esse julgamento vai para o Tribunal de Justiça. Aí, segundo seja a Câmara, o desembargador põe o desembargo, desimpede, desembaraça, despacha, dá a sentença definitiva, caso não haja recursos para instâncias superiores: STJ e STF.

No popular, pode-se dizer que o desembargador É O JUIZ QUE DESEMBUCHA!

Zacharias Bezerra de Oliveira

venerdì 4 febbraio 2011

NORMA CULTA E LÍNGUA-PADRÃO

Tenho recebido de vários leitores indagações sobre o que é afinal a língua-padrão, termo que começou a circular fora do meio acadêmico. É diferente de norma culta? Trata-se de sinônimos?

Quando acessam a internet e buscam uma página como o Língua Brasil para solucionar dúvidas, os consulentes – que já falam e escrevem português cotidianamente – desejam ampliar seu capital linguístico obtendo conhecimentos que estejam de acordo com a modalidade de língua chamada padrão ou culta. Por isso achei oportuno trazer essa questão a discussão neste espaço semanal. Procurarei fazê-lo em linguagem o menos possível acadêmica e acessível aos leitores interessados.
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Mesmo que não se mencione terminologia específica, é evidente que se lida no dia a dia com níveis diferentes de fala e escrita. É também verdade que as pessoas querem “falar e escrever melhor”, querem dominar a língua dita culta, a correta, a ideal, não importa o nome que se lhe dê.

O padrão de língua ideal a que as pessoas querem chegar é aquele convencionalmente utilizado nas instâncias públicas de uso da linguagem, como livros, revistas, documentos, jornais, textos científicos e publicações oficiais; em suma, é a que circula nos meios de comunicação, no âmbito oficial, nas esferas de pesquisa e trabalhos acadêmicos.
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Não obstante, os linguistas entendem haver uma língua circulante que é correta mas diferente da língua ideal e imaginária, fixada nas fórmulas e sistematizações da gramática. Eles fazem, pois, uma distinção entre o real e o ideal: a língua concreta com todas suas variedades de um lado, e de outro um padrão ou modelo abstrato do que é “bom” e “correto”, o que conformaria, no seu entender, uma língua artificial, situada num nível hipotético.

Para os cientistas da língua, portanto, fica claro que há dois estratos diferenciados: um praticamente intangível, representado nas normas preconizadas pela gramática tradicional, que comporta as irregularidades e excrescências da língua, e outro concreto, o utilizado pelos falantes cultos, qual seja, a “linguagem concretamente empregada pelos cidadãos que pertencem aos segmentos mais favorecidos da nossa população”, segundo Marcos Bagno (A norma oculta: língua e poder na sociedade brasileira. SP: Parábola, 2003, p.51).

Convém esclarecer que para a ciência sociolinguística somente a pessoa que tiver formação universitária completa será caracterizada como falante culto (urbano).

Sendo assim, como são presumivelmente cultos os sujeitos que produzem os jornais, a documentação oficial, os trabalhos científicos, só pode ser culta a sua linguagem, mesmo que a língua que tais pessoas falam e os textos que produzem nem sempre se coadunem com as regras rígidas impostas pela gramática normativa, divulgada na escola e em outras instâncias (de repressão linguística) como o vestibular.

Isso é o que pensam os linguistas. E o povo – saberá ele fazer a distinção entre as duas modalidades e os dois termos que as descrevem?

* Maria Tereza de Queiroz Piacentini Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros 'Só Vírgula', 'Só Palavras Compostas' e 'Língua Brasil – Crase, pronomes & curiosidades' - www.linguabrasil.com.br

giovedì 3 febbraio 2011

Você" ou "Doutor"? Ou seria Vossa Excelência?

LEMBRAM DO JUIZ QUE ENTROU NA JUSTIÇA CONTRA O CONDOMÍNIO EM QUE MORA, POR CAUSA DO TRATAMENTO DE "'VOCÊ" DADO PELO PORTEIRO?

POIS É, SAIU A SENTENÇA, LEIAM ABAIXO.

OBSERVEM A BELA REDAÇÃO, BEM ARGUMENTADA, ATÉ SOLIDÁRIA DO JUIZ ALEXANDRE EDUARDO SCISINIO PARA COM O JUIZ QUE SE QUEIXA, MAS....

UMA VERDADEIRA AULA DE DIREITO E DE PORTUGUÊS!

Processo distribuido em 17.02.2005

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO - COMARCA DE NITERÓI - NONA VARA CÍVEL
9º vara cívil de Niterói - RJ

Processo n° 2005.002.003424- 4

S E N T E N Ç A

Cuidam-se os autos de ação de obrigação de fazer manejada por ANTONIO MARREIROS DA SILVA MELO NETO contra o CONDOMÍNIO DO EDIFÍCIO LUÍZA VILLAGE e JEANETTE GRANATO, alegando o autor fatos precedentes ocorridos no interior do prédio que o levaram a pedir que fosse tratado formalmente de "senhor".

Disse o requerente que sofreu danos, e que esperava a procedência do pedido inicial para dar a ele autor e suas visitas o tratamento de ' Doutor, senhor" "Doutora, senhora", sob pena de multa diária a ser fixada judicialmente, bem como requereu a condenação dos réus em dano moral não inferior a 100 salários mínimos. (...)

DECIDO: "O problema do fundamento de um direito apresenta-se diferentemente conforme se trate de buscar o fundamento de um direito que se tem ou de um direito que se gostaria de ter." (Noberto Bobbio, in "A Era dos Direitos", Editora Campus, pg. 15).

Trata-se o autor de Juiz digno, merecendo todo o respeito deste sentenciante e de todas as demais pessoas da sociedade, não se justificando tamanha publicidade que tomou este processo.

Agiu o requerente como jurisdicionado, na crença de seu direito. Plausível sua conduta, na medida em que atribuiu ao Estado a solução do conflito.

Não deseja o ilustre Juiz tola bajulice, nem esta ação pode ter conotação de incompreensível futilidade. O cerne do inconformismo é de cunho eminentemente subjetivo, e ninguém, a não ser o próprio autor, sente tal dor, e este sentenciante bem compreende o que tanto incomoda o probo Requerente.

Está claro que não quer, nem nunca quis o autor, impor medo de autoridade, ou que lhe dediquem cumprimento laudatório, posto que é homem de notada grandeza e virtude. Entretanto, entendo que não lhe assiste razão jurídica na pretensão deduzida.

"Doutor" não é forma de tratamento, e sim título acadêmico utilizado apenas quando se apresenta tese a uma banca e esta a julga merecedora de um doutoramento. Emprega-se apenas às pessoas que tenham tal grau, e mesmo assim no meio universitário. Constitui-se mera tradição referir-se a outras pessoas de 'doutor', sem o ser, e fora do meio acadêmico.

Daí a expressão doutor honoris causa - para a honra -, que se trata de título conferido por uma universidade à guisa e homenagem a determinada pessoa, sem submetê-la a exame.

Por outro lado, vale lembrar que "professor" e "mestre" são títulos exclusivos dos que se dedicam ao magistério, após concluído o curso de mestrado. Embora a expressão "senhor" confira a desejada formalidade às comunicações - não é pronome -, e possa até o autor aspirar distanciamento em relação a qualquer pessoa, afastando intimidades, não existe regra legal que imponha obrigação ao empregado do condomínio a ele assim se referir.

O empregado que se refere ao autor por "você", pode estar sendo cortês, posto que "você" não é pronome depreciativo. Isso é formalidade, decorrente do estilo de fala, sem quebra de hierarquia ou incidência de insubordinação. Fala-se segundo sua classe social. O brasileiro tem tendência na variedade coloquial relaxada, em especial a classe "semi-culta" , que sequer se importa com isso.

Na verdade "você" é variante - contração da alocução - do tratamento respeitoso "Vossa Mercê". A professora de linguística Eliana Pitombo Teixeira ensina que os textos literários que apresentam altas freqüências do pronome "você", devem ser classificados como formais. Em qualquer lugar desse país, é usual as pessoas serem chamadas de "seu" ou "dona", e isso é tratamento formal.

Em recente pesquisa universitária, constatou-se que o simples uso do nome da pessoa substitui o senhor/a senhora e você quando usados como prenome, isso porque soa como pejorativo tratamento diferente. Na edição promovida por Jorge Amado "Crônica de Viver Baiano Seiscentista", nos poemas de Gregório de Matos, destacou o escritor que Miércio Táti anotara que "você" é tratamento cerimonioso. (Rio de Janeiro, São Paulo, Record, 1999).

Urge ressaltar que tratamento cerimonioso é reservado a círculos fechados da diplomacia, clero, governo, judiciário e meio acadêmico, como já se disse. A própria Presidência da República fez publicar Manual de Redação instituindo o protocolo interno entre os demais Poderes. Mas na relação social não há ritual litúrgico a ser obedecido. Por isso que se diz que a alternância de "você" e "senhor" traduz-se numa questão sociolingüística, de difícil equação num país como o Brasil de várias influências regionais.

Ao Judiciário não compete decidir sobre a relação de educação, etiqueta, cortesia ou coisas do gênero, a ser estabelecida entre o empregado do condomínio e o condômino, posto que isso é tema interna corpore daquela própria comunidade.

Isto posto, por estar convicto de que inexiste direito a ser agasalhado, mesmo que lamentando o incômodo pessoal experimentado pelo ilustre autor, julgo improcedente o pedido inicial, condenando o postulante no pagamento de custas e honorários de 10% sobre o valor da causa. P.R.I. Niterói, 2 de maio de 2005.

ALEXANDRE EDUARDO SCISINIO /Juiz de Direito/

NÃO É QUE, NESTE PAÍS AINDA EXISTEM JURISTAS HONRADOS E CULTOS?

Nem tudo está perdido...

lunedì 31 gennaio 2011

Ensinando aprende-se mais

As pessoas que mais aprendem são as que mais ensinam. Até mesmo a forma como elas buscam o aprendizado é um ensinamento para nós. Quem culpa a falta de tempo por não fazer aquele curso tão importante para sua ascensão profissional talvez não saiba que Lincoln tornou-se advogado estudando sozinho, nas raras horas livres que seu trabalho braçal lhe permitia. Os que afirmam não terem “condições adequadas” para aprender provavelmente ignoram o fato de que Marie Curie arriscou a liberdade e a vida para poder estudar. Os que dizem que “é tarde demais para aprender” possivelmente desconhecem a história de Roberto Marinho. Quem está sempre declarando: “Nunca vou conseguir aprender isso”, talvez começasse a pensar diferente se ouvisse a história de Alcino Neto. E os profissionais preocupados apenas com o conhecimento necessário aos aspectos técnicos de suas carreiras teriam muito a ganhar se pensassem a respeito da máxima de Willard Rockwell: “Desenvolva tanto o homem quanto o gerente”.
Cora Coralina tem uma frase muita sábia: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. É curioso notar ela não diz “ensina o que sabe”, mas, sim, “transfere”. Quem pensa em termos de “ensinar o que sabe” pode estar se colocando na posição de um professor na sala de aula, sem o ser. E, ainda por cima, pode estar se colocando na posição de um mau professor, que se envaidece ao exibir de forma arrogante o conhecimento que acumulou.
Por outro lado, quem transfere o que sabe não está preocupado em “dar lições”, mas em partilhar. Pessoas assim não fazem questão de ser admiradas: fazem questão de ser úteis. Ao transferir o que sabem, elas não estão impondo suas crenças, seus métodos e seus valores aos demais. Os que transferem o que sabem reconhecem e respeitam esse direito, pois entendem que nenhum conhecimento pode ser verdadeiramente assimilado e colocado em prática sem antes ser digerido, elaborado e re-elaborado por aquele que o recebe. Na prática, essa é a diferença entre um chefe de família que obriga os filhos a pensar como ele e um pai que respeita e orienta a forma de pensar dos filhos. É a diferença entre um chefe que obtém resultados medíocres ao impor seus conceitos de modo autoritário e um líder que se compraz ao ver suas idéias florescerem e se desenvolverem ao serem assimiladas por seus funcionários.
A segunda parte da frase de Cora Coralina fala em “aprender o que ensina”. Ao nos colocarmos na posição de ensinarmos alguma coisa, precisamos estar atentos a tudo que ainda podemos aprender com aquilo que achávamos que já sabíamos. Posso citar como exemplo minha própria experiência como palestrante. Por mais que eu conheça o assunto sobre o qual vou falar, por mais que já tenha feito a mesma palestra dezenas de vezes, nunca deixo de aprender alguma coisa nova a cada palestra que dou. A interação com o público, a troca de opiniões, as perguntas e observações que surgem sempre acrescentam algo a mais, sempre somam algo novo àquilo que eu achava que já sabia.
Há uma pequena história que eu costumo contar no início de minhas palestras. Quando minha filha tinha três anos de idade, nós morávamos em uma rua movimentada e perigosa. Cada vez que nosso portão era deixado aberto por algum descuido, minha filha saía correndo e atravessava a rua para chegar à casa de uma amiga que morava na calçada em frente. Preocupados com a situação, eu e minha esposa decidimos ensinar à pequena como atravessar a rua com segurança. Assim, da próxima vez que, aproveitando-se de algum descuido, ela tentasse escapulir, pelo menos estaria sabendo como lidar com os perigos da rua. “Primeiro você para na calçada”, disse-lhe eu. “Depois, olha para cima e para baixo, e só então atravessa”, expliquei. Como a rua era uma ladeira, eu achei que tinha deixado bem claro que os carros poderiam estar subindo ou descendo e que, portanto, era necessário olhar em ambas as direções. Dias depois da lição, minha filha aproveitou-se do fato de que o portão fora acidentalmente deixado aberto e saiu correndo. Fomos atrás dela, mas não conseguimos alcançá-la a tempo. Com o coração apertado eu a vi parar junto ao meio-fio, olhar para o céu, olhar para o chão e atravessar a toda velocidade. Por sorte, nada lhe aconteceu. Mas, passado o susto, minha esposa e eu concluímos que nossa filha havia feito exatamente o que lhe ensinamos: olhou para cima (para o céu), e para baixo (para o chão). Ela entendeu a mensagem de acordo com seu conhecimento e com sua forma de ver o mundo. Nós, por outro lado, a ensinamos da maneira que nos parecia ser a mais óbvia, sem pararmos para pensar de que modo ela poderia estar compreendendo isso.
Nesse exato momento, quantos chefes, gerentes e funcionários mais velhos não estão fazendo o mesmo? Quantos por aí não estão culpando seus colaboradores por “não fazer o que lhes foi ensinado”, sem pararem para pensar que o problema talvez esteja na forma como o ensinamento foi transmitido?
Paulo Kretly, presidente da FranklinCovey Brasil e autor de Deixe um Legado.